As diferentes faces da cidade
1º lugar | 3ª série • As diferentes faces da cidade
A faca de duas pontas
Em 1920, o conceito de “American Way of Lite” (maneira americana de viver) foi altamente disseminado. Ele consistia na ideia de que a família estadunidense comum é “perfeita”, o que, no modelo econômico capitalista, significa branca e com alto poder aquisitivo, dadas as desigualdades sociais e raciais desse modelo. Assim, famílias pretas ou de menor renda não são “tão válidas” por não se encaixarem no padrão estabelecido. Tanto que, no filme “Don’t Worry Darling”, de Olivia Wilde, um homem resolve utilizar de uma tecnologia para transportar ele e sua mulher a uma realidade alternativa na qual eles contemplam tais métricas do “American Way of Life”. Sendo assim, na sociedade atual existem dois grupos: um com alto poder aquisitivo, que tenta manter-se nessa posição e afastar o segundo, que possui menos capital e, por isso, é “menos relevante”, enquanto esse visa acumular dinheiro para “transferir-se” para o outro, segundo a lógica de “Consumo, logo sou”. Ou seja, quanto mais dinheiro, mais importância. Entretanto, essa desigualdade e “disputa” geram uma segregação nas cidades, separando os dois grupos, e uma alta taxa de violência nelas, já que ela é utilizada como “atalho” na transição de grupos.
Sob esse ponto de vista, é possível afirmar que a segregação territorial nas cidades é altamente influenciada pelos ideais capitalistas e da “American Way OF Life”, já que as pessoas com menor quantidade de capital não tem opção sem ser habitar locais periféricos e mais baratos, enquanto os mais ricos moram no centro, com mais espaço, menos tempo de trajeto, mais serviços, lazer, entre outros. Ou seja: como a política, economia, cultura, entre outros, são polos historicamente controlados pelos indivíduos com mais capital, já que eles investem neles, os projetos são pensados para as áreas que eles moram, negligenciando a periferia. Como afirmado na canção “Minha alma (a paz que eu não quero)”, “paz sem voz não é paz, é medo”, portanto, a falta de representatividade de parte da população força ela a manter-se oprimida pela parte mais rica, fazendo a segregação nas cidades (trecho ilegível).
Além disso, essa desigualdade social e territorial leva as pessoas a optarem por caminhos violentos, em diversos casos, para tentarem mudar rapidamente sua situação e irem para o “outro grupo”. No filme “Cidade de Deus”, o desespero por trás do tráfico e violência fica explícito, mostrando o que essa marginalização leva as pessoas a fazerem. Sendo assim, a segregação social e territorial nas cidades induz os indivíduos à violência, em uma tentativa de mudança de vida.
Portanto, as diferentes faces da cidade, sendo uma rica, com serviços e outra mais pobre e negligenciada, são demonstradas pela segregação territorial delas, e recorrência à violência como meio de mudança de vida. Isso se dá pois, a desigualdade social e de territorio cala pessoas que, sem representatividade política/projetos destinados a elas, optam por outra maneira de se fazer escutar: a violência, já que “paz sem voz não é paz, é medo”, e tal medo é devolvido em forma de violência (falta representatividade para um grupo, que se vinga do outro que o calou, e tenta mudar sua condição de vida).
2º lugar | 3ª série • As diferentes faces da cidade
A lógica das cidades: entre a proteção e a precarização
Desde o surgimento da humanidade observa-se a tendência da formação de uma sociedade a partir da organização no espaço. O principal objetivo desta prática é garantir a segurança e manter a integridade dos indivíduos. Nesse contexto, as cidades, assim como preservam a coesão social, também evidenciam a desigualdade e instabilidade desse modelo. Com efeito, ocorre a precarização da vivência, em troca da suposta proteção.
Sob essa ótica, é necessário compreender como é a estruturação e quais as contradições das cidades. Nesse sentido, o sociólogo Émile Durkheim comparava o espaço urbano a um corpo orgânico, no qual cada parte interage com o resto em uma cadeia intra dependente. Logo, apesar de esse vínculo aparentar-se como sendo algo positivo, ele ainda reafirma a submissão e dominação, a partir de sua manifestação física, como no caso das diversas arquiteturas que buscam oprimir um grupo.
Em seguida, compreende-se a precarização como a degradação das relações econômicas e sociais. Nessa lógica, o livro “Os Ratos” de Dyonélio Machado retrata de maneira expressiva a experiência de um trabalhador comum em meio ao ambiente urbano. Neste livro o protagonista sente-se constantemente sob pressão para alimentar seu filho, e percorre uma cidade marcada pelo vício e frustração. Então, a obra exemplifica os dilemas vivenciados entre os diferentes habitantes e explora a degradação dos mesmos.
Em conclusão, a lógica da formação dos espaços urbanos é pautada em um forte contraste, entre seu objetivo original, o de manter a ordem social e a prática, que é a exploração das pessoas e a consequente piora em suas vidas.
3º lugar | 3ª série • As diferentes faces da cidade
A desigualdade social e a reflexão sobre o
desenvolvimento tecnológico global
Em diversos livros escolares da disciplina geografia - ciência que estuda a ocupação do ser humano na crosta terrestre - está presente uma imagem que retrata um condomínio de alto padrão de luxo e a comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, apenas separados por um muro. Isso evidencia que nenhum espaço urbano pode ser resumido a uma única característica, e, portanto, são apresentadas diferentes faces em sua composição. Dessa forma, as cidades contemporâneas apresentam um alto grau de desigualdade social, a qual é usualmente ofuscada pelo desenvolvimento tecnológico em polos nacionais.
Em primeira instância, é relevante o fato de que as disparidades sociais no Brasil são crônicas e fortemente moldadas por fatores históricos. O passado de colonização com uso de mão-de-obra escrava negra - trazida a África - além da abolição promovida sem assistência ao afrodescendente, são fatores que construíram a desigualdade social de maneira atrelada ao indicador racial. Isso pode ser associado às cidades contemporâneas sob o atual cenário em que a maioria da população brasileira abaixo da linha da pobreza é composta por negros ou pardos com descendência africana. Na mesma perspectiva, a maior parcela dos milionários no país são brancos com descendência europeia. Esses fatos ressaltam a associação entre disparidades sociais e raça no Brasil.
Além disso, os avanços tecnológicos provenientes da globalização criam a falsa impressão de desenvolvimento social. Para Milton Santos, a globalização é um fenômeno advindo do término da Guerra Fria que favoreceu o enriquecimento de empresas transnacionais, e a integração proposta pelo processo ficou restrita às elites, enquanto as classes mais pobres foram excluídas, o que salientou as desigualdades sociais. Dessa forma, enquanto o rico desfruta da câmera de última geração do Iphone 15, o pobre enfrenta problemas de acesso ao wifi. Assim, a contemporaneidade apresenta um fluido desenvolvimento tecnológico, contrário ao deficiente desenvolvimento social.
Logo, a construção das desigualdades sociais no país por meio de aspectos histórico-(trecho ilegível) e a concepção errônea de que o desenvolvimento tecnológico reflete desenvolvimento social, moldam as cidades contemporâneas nas quais as elites têm acesso aos mais diversos recursos, contrária à falta de acesso das classes trabalhadoras. Portanto, o muro que separa Paraisópolis do luxo, evidencia as diferentes faces da cidade.
Veja também
6° ano | 7° ano | 8°ano | 9° ano | 1ª série | 2ª série | 3ª série | Créditos das Ilustrações | Organização